Crise da Educação na Época das Crises

Em 1966, Hannah Arendt definiu a modernidade como era com “caráter de crise”. Falando em “quebras de todas as autoridades tradicionais”, nas “muitas crises em quase todos os campos das atividades humanas”, Arendt escreveu livros como Entre Passado e Futuro – entre um passado que “perdeu sua validade inquestionável” e um futuro radicalmente contingente -, nos quais apresentou ensaios sobre O Fim da Tradição, A Crise na Cultura, A Crise na Educação. Sua obra como um todo pode ser entendida como uma resposta a essas crises.

Nestes anos, testemunhei “com outros” essas crises se entrelaçando: há até crise do turismo. O turista está cansado de datas. E o guia está cansado de comercializar a história para ganhar 5 estrelas. Mais amplamente, tem a crise da atenção, do “olho que não descansa” (N. Postman). E tem a crise da angústia (apesar da promessa moderna de “controle” e “previsibilidade”), da solidão, trabalho, ecologia, política, e as reações – sobretudo reacionarismos nostálgicos de “tradições” míticas – que acentuam as crises: tribalismos, neoimperialismos, militarismos.

Então: parar e pensar, itinerantemente, fisicamente, humanamente.

E penso em duas insuficiências:

Insuficiência da tradição acadêmica. Eu devo minha formação à academia, a orientadores, professores e colegas. Espero que as universidades, assaltadas pelas crises do nosso tempo, preservem seu rigor escolástico, diversidade teórica, pensamento nuançado, liberdade de pesquisa. As virtudes e contradições dela a tornam vulnerável. Fatiados em especialidades técnicas, muitos acadêmicos não têm recursos para ver o “todo”, falar com o “público”, e imaginar critérios diferentes de seus próprios. Fundando sua autoridade na tipografia (textos, contextos, livros, monografias, papers), a academia corre o risco de ficar sem uma linguagem para comunicar sua própria crise. Desejo que a academia seja como o passado definido por Arendt: mesmo perdendo legitimidade, que continue existindo. Por essas e outras razões, busco linhas que se amparam na academia, mas se atualizam fora dela.

Insuficiência do tecno-otimismo. Por outro lado, há o fervor utópico sobre esse futuro que está sempre vindo para nos salvar, dessa vez não como escatologia divina, mas como solução aos “problemas” da condição humana, incluída a educação: “Aprenda”, li num anúncio online, “como quem assiste Netflix”. Entre me amoldar à visão de homens como Mark Zuckerberg, Elon Musk, Sam Altman, eu prefiro escutar “homens brancos” como Aristóteles (nem tão branco assim), para quem o pensamento prático (ético-político-existencial) só pode ser aprendido na prática, ou seja, na vida, agindo, sofrendo, dia após dia, ano após anos – aprender matemática e viver são atividades diferentes; como Kant, para quem (em nome de quase todos filósofos) as questões da filosofia – o que é ser humano, como viver uma vida digna, como ser livre – não podem ser respondidas de maneira científica, objetiva; como Nietzsche, quem associou pensar com “aprender a ver”, e “dançar”, com os “pés”, “conceitos”, “com a caneta”.    

Talvez valha a pena ainda revisitar Victor Klemperer, que definiu a linguagem totalitária como uma “língua que pensa e sente” por nós. Queremos uma linguagem que pense e sinta por nós?

Então, junto com especular sobre o que a IA pode fazer por nós, proponho também pensar o que nós podemos fazer por nós mesmos.

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