Itinerante: Um Manifesto

Passei anos tomando chuva nas ruas de Berlim. Descobri museus com visitantes de Taiwan e da Finlândia. Ensinei (e aprendi) sociologia com estudantes de design, estudei filosofia com filósofos, lecionei escrita para servidores públicos. Vasculhei livrarias. Me afundei em bibliotecas. Vi minha capacidade de leitura danificada pelas forças digitais. Trabalhei e cansei. Escrevi e li. Reli A Condição Humana: pensar o que estamos fazendo.

Com esses pedaços de experiência no meu saco de viagem, proponho as seguintes linhas para pensar o que estamos fazendo com a educação. Aqui está a minha errância deduzida em métodos (caminhos) de pensamento:

Itinerante. Pensar é sair do lugar. Não falo metaforicamente, mas literalmente. Penso num pensar que mexa cabeça e pernas. Em vez de educação sentada (na sala ou na tela), proponho voltar ao peripatético: expedições do pensamento para abrir olhos físicos e olhos mentais.

Físico. Pensamos com a cabeça, ouvido, nariz, mão, circunstâncias do corpo. Pensa-se lendo, escrevendo, falando, silenciando. Pensa-se com e sem palavras. Pensar é multissensorial. Corpo e mente não estão cindidos, mas unidos na totalidade da existência.

Humano. Um Modelo de Linguagem (LLM) acumula dados, analisa, sintetiza, e junta, probabilisticamente, palavras em frases em parágrafos em textos. Mas LLM não podem se reunir na praça. Não podem viajar a uma vala coletiva. Não podem falar encarnadamente sobre dor, sobre vida, morte, justiça, sobre o trabalho “alienado”, pois não sofrem, não cansam, não precisam dormir. Um espaço humano de educação é literal também: a presença de outros corpos e rostos que nos limitam e nos expandem.

Um método itinerante em Mariendorf, Berlim. (Foto: Radi Dhan)

              A educação tal como existe – entre, de um lado, uma academia fragmentada, também cansada e em crise, e, de outro, um tecno-messianismo acrítico – pode não dar conta dos muitos impasses do nosso tempo (desenvolvo mais essa crise aqui). Por isso, proponho uma prática que seja, além de itinerante, excêntrica.  

Uma Prática Excêntrica. Uma “Escola” Sem Centro.

Proponho uma ida reflexiva ao mundo físico, ao que Benjamin poderia chamar de aura de locais onde pessoas se juntam para deliberar, caminhar – educando-se entre exemplos, referências (pedaços do passado), respostas abertas. Pode significar ainda uma ampliação sensorial do que Fred Dewey iniciou com a Portable Polis. E podem ser respostas (em vez de “solução”) a situações, com desenhos de programas de pensamento (itinerantes, físicos, humanos) a partir de perplexidades determinadas.

Aqui há algumas ideias:

Podemos estudar em Como Não Ser o Tiozão do Whatsapp, explorando dez lições de As Origens do Totalitarismo, de Arendt, lendo o texto em memoriais e locais políticos; podemos viajar entre Alemanha, Polônia, Itália com o tema Lembrando de Lembrar, elaborando questões de memória coletiva, amnésias e anistias, entre as “feridas do passado” e os sentidos do presente; podemos criar sessões-deliberações sobre se É Verdade que a Verdade Acabou?, em centros de documentação, redações de jornalismo, agências de rede social, departamentos de historiografia; podemos criar um programa-pergunta sobre se Há Remédio Para as Dores do Mundo?, cruzando psicologia, psiquiatria e política, pensando interações entre self e sociedade; podemos ler e deliberar em teatros e cinemas sobre se viramos Sujeitos a Choques, uma atualização do conceito de sujeição, não mais a reis, mas a dopaminas e táticas behavioristas.

Podemos trabalhar com escolas, universidades. Podemos nos organizar com grupos profissionais (arquitetos, jornalistas, advogados, psicólogos, programadores etc.), superando a fragmentação técnica com visões filosóficas e humanistas. Podemos reunir grupos informais, leigos, cidadãos transnacionais que queiram pensar o que estamos fazendo visitando locais, encontrando outros rostos e corpos.

Os caminhos são muitos, e estão abertos. Os horizontes para pensar em conjunto são ilimitados. A tarefa é urgente. Se você tem ideias para atualizar o método itinerante, me escreve em rafaelkasper@gmail.com